segunda-feira, 10 de agosto de 2009

J.League mudou a geografia do mundo da bola



Há dezesseis anos o mundo do futebol ganhou um sotaque oriental. Em 1993, o Japão deu o pontapé inicial para o seu primeiro campeonato profissional de futebol. A criação da J.League, a liga japonesa de futebol, mudou de vez a geografia do futebol mundial. Desde então, jogadores, técnicos e outros profissionais de países com mais tradição no universo futebolístico passaram a escolher a Ásia como destino, a grande maioria atraída pelos salários generosos oferecidos para as grandes estrelas.
A criação da J.League não nasceu do dia para a noite. Foi um processo que levou anos até seu amadurecimento. O crescimento da economia nipônica, principalmente nas décadas de 70 e 80, criou um potencial de mercado para eventos esportivos. O País já possuía as suas preferências esportivas como o beisebol e o sumô e introduzir um novo esporte de massa representava um desafio muito grande para os dirigentes da Associação Japonesa de Futebol (JFA). Basta relembrar que os Estados Unidos tentaram o feito na época em que contrataram Pelé para jogar no Cosmos, mas não obtiveram sucesso. Implantar o futebol profissional no Japão seria algo comparável à difusão do futebol americano no Brasil.

Acreditando no Japão- Durante a década de 70 empresas como a Coca-Cola e a Adidas apostaram na idéia de tornar o futebol uma nova mania na Terra do Sol Nascente e investiram na popularização do esporte bretão na terra dos samurais. Foi nessa época que Sérgio Echigo, o nipo-brasileiro que ensinou o drible elástico para Rivelino, foi convidado por essas duas empresas para promover eventos de futebol no Japão. Além de ter jogado na equipe semiprofissional Touwa Fudosan, Echigo se tornou um dos principais comentaristas de futebol da TV japonesa.
Mas a tarefa era árdua. O beisebol mantinha sua hegemonia na preferência dos japoneses. No final dos anos 70, aconteceu um fato que ajudaria o Japão a entrar no universo do futebol. A Taça Intercontinental de Clubes, que era disputada entre o campeão da Europa e o campeão da América do Sul, enfrentava uma crise muito grande, pois as equipes campeãs européias não se sentiam motivadas a disputar uma competição que representava risco de lesões aos seus jogadores e oferecia premiações desanimadoras. O Japão viu no evento uma oportunidade de ouro e, a partir de 1980, passou a sediar o duelo entre Europa e América do Sul, patrocinado pela Toyota. Nascia ali uma parceria que se tornou célebre e que passou a protagonizar os sonhos de todos os torcedores. O Mundial Interclubes, como ficou conhecido o evento no Brasil, levou para o Japão o supra-sumo do futebol mundial. Isso fez com que os japoneses começassem a se interessar mais pelo esporte.

Mangá- Paralelamente ao Mundial Interclubes, a Associação Japonesa de Futebol passou a financiar uma publicação de um mangá (revista em quadrinhos japonesa) chamado Capitain Tsubasa. O personagem principal se chamava Ozora “Oliver” Tsubasa, um estudante ginasial cujo objetivo principal era se tornar o maior craque do futebol japonês. O sucesso do desenho foi imediato e a história passou a ser acompanhada semanalmente por milhões de crianças e adolescentes e ganhou até uma versão animada exibida na TV. Essa geração, que aprendeu as primeiras noções de futebol pela criação do desenhista Yoichi Takahashi, viria a formar a primeira leva de jogadores profissionais japoneses.
Restava aprimorar a técnica e estruturar a organização para que o Japão finalmente entrasse na era profissional. O primeiro grande nome brasileiro a ir para o outro lado do mundo para ajudar nesse processo foi Oscar, ex-capitão do São Paulo e da seleção brasileira, que jogou no Nissan F.C. Seu futebol encantou os japoneses e pouco a pouco os japoneses foram aprendendo o que era o futebol de alto nível.
Logo depois o time semiprofissional Sumitomo Metals fez uma proposta milionária para que Zico jogasse em seu time. O Galinho de Quintino tinha acabado de deixar a Secretaria Nacional de Esportes e aceitou o desafio. Foi o casamento perfeito entre a técnica refinada do brasileiro e a vontade de aprender dos japoneses. Zico era o nome de peso que o Japão precisava para dar visibilidade ao esporte para implantar o futebol profissional no País. Nascia a J.League.

Zico, o Deus do Futebol

Não há como falar sobre o futebol profissional japonês sem mencionar Zico. Os japoneses o chamam de “Soccer no Kamissama”, que traduzindo em bom português significa Deus do Futebol. A idolatria nipônica por Zico lhe rendeu duas estátuas e, quando ele resolveu deixar de ser jogador profissional, ganhou uma despedida com requintes de superprodução, uma festa ainda sem equivalência no futebol brasileiro.
Começo difícil- Zico conta que quando foi contratado pelo Sumitomo, o cenário era de amadorismo puro, com times formados por funcionários de empresas e que dividiam o tempo entre o futebol e o "trabalho". Ele relembra que os campos eram de terra batida, não existiam estádios e nem torcida. “Era, de fato, um começo”, relata Zico. Seu companheiro nos tempos de Kashima Antlers, Alcindo Sartori, ressalta que no início da J.League todos os jogadores eram obrigados a lavar a própria chuteira. “Foi como voltar ao início da nossa carreira. O Zico, que já estava lá há um ano e meio, também passou por isso”, recorda o jogador. O Galinho recebeu a reportagem do Cipango para falar um pouco sobre a J.League.

Cipango- Este ano a J.League completou 16 anos. Como o senhor avalia a evolução do futebol japonês nesse período?
R: Hoje já não acompanho mais tão de perto, mas não resta dúvida que o futebol no Japão evoluiu bastante a partir da profissionalização, com a criação da liga. E foi por fases, num primeiro momento com a chegada de estrangeiros, como eu. Em seguida a gente já podia ver o início da saída de jogadores para a Europa, criando um novo estímulo e um trabalho de base. O intercâmbio ainda é um problema para o futebol japonês, mas o crescimento é evidente.

Cipango- Você chegou ao Japão precedido por brasileiros como Sérgio Echigo e Oscar e mesmo assim encontrou o futebol japonês em um estágio amador. O que mudou daquela época para cá? Qual eram as condições no início? Tinha roupeiro? O Alcindo me contou que você lavava a sua própria chuteira. Como foi essa fase para você?
Zico- Para se ter uma idéia, joguei em campos sem gramado, não havia uma torcida e alguns de meus companheiros eram funcionários da fábrica e estavam mais preocupados com seus empregos. Parecia em alguns momentos que o futebol estava atrapalhando. Então tínhamos uma estrutura precária nesse sentido, não era profissional. Mas o importante nisso tudo é que havia, por parte dos dirigentes, muita vontade de mudar isso. Aos poucos foi se conseguindo campos, estádios, formar torcida e mostrar aos jogadores que eles deveriam decidir se queriam continuar funcionários da fábrica ou atletas. Até na alimentação nós interferimos, introduzimos o feijão no Kashima e até hoje se come feijão por lá.

Cipango- O senhor acha que a J.League ainda pode se tornar um campeonato tão competitivo quanto os europeus ou sul-americanos?
Zico- O grande problema da J. League é a distância do Japão (em relação à Europa). Esse é o grande empecilho. Eles têm jogadores de qualidade, clubes dispostos a investir, mas é difícil você se tornar potência tão distante do grande centro que é a Europa. A América do Sul mesmo sofre um pouco com isso. Mas acho que a J. League tem seus atrativos e ainda pode se desenvolver mais. O modelo foi baseado tentando buscar o que havia de melhor nos principais campeonatos do mundo, dando um toque japonês, é claro.

Cipango- Como você avalia a participação dos jogadores brasileiros na
J.League ao longo destes 16 anos?
Zico- Eles foram muito importantes. Em uma determinada fase os estrangeiros eram decisivos. E até hoje as listas de artilheiros estão repletas de brasileiros. No nosso time teve Alcindo, Carlos Aberto Santos, Jorginho, Leonardo, Bismark e muitos outros. Muita gente boa que ajudou o futebol do Japão a crescer e o campeonato a ser respeitado fora.

Cipango- Você chegou ao posto de técnico da seleção japonesa e viu que o Japão já começa a produzir alguns talentos, mas mesmo assim ainda precisa evoluir muito para se tornar uma potência mundial. O que os japoneses precisam para figurar no cenário de primeira grandeza no futebol?
Zico- Um dos principais problemas é o biotipo físico baseado na alimentação.
Os japoneses estão sempre sujeitos a muitas lesões e isso complica. A questão da distância afeta também a seleção, pois fica mais complicado (realizar) amistosos que reúnam a seleção com os jogadores da Europa e os do Japão.
Estes são para mim os pontos mais importantes.

Cipango- O Brasil continua sendo um dos principais fornecedores de jogadores para o Japão. Isso mexe inclusive com o mercado da bola brasileiro. Muitas vezes um jogador cobiçado por um clube brasileiro acaba optando por jogar no Japão. Esse intercâmbio tem feito o futebol japonês evoluir? E para os jogadores brasileiros? Isso é bom ou ruim? Eles não ficariam muito tempo afastados da mídia brasileira?
Zico- Para o Japão, ainda que iniba um pouco a formação de ídolos locais, é bom contar com a qualidade dos brasileiros, pois ela inspira e traz aos atletas locais motivação para evoluir. Para o mercado brasileiro, o que posso dizer é que é uma tendência natural em função do peso das moedas. Para os jogadores, acho que cada caso é um caso. Trata-se de uma boa oportunidade financeira que, dependendo da idade e do que aspira o jogador, pode ser uma ida e volta depois ou até um salto para a Europa.

Cipango- Com tantos anos atuando no futebol profissional você ensinou muita coisa aos japoneses e também fez isso no Uzbequistão (Atualmente está no CSKA, da Rússia). Mas você aprendeu alguma coisa com os japoneses também?
Zico- Muita coisa, a gente sempre aprende. O jeito disciplinado deles, a seriedade com que encaram os desafios. O povo do oriente tem muitos ensinamentos e eu certamente aprendi muito no período em que estive por lá.

Cipango- Este ano a crise tem assolado o mundo inteiro e os reflexos já podem ser sentidos no mercado da bola. Você acha que o futebol japonês pode entrar em dificuldades?
Zico- Não especificamente, acho que a crise é global e deve afetar a todos globalmente. Não vejo assim uma razão para o Japão sofrer mais do que os outros.

Cipango- Obrigado pela entrevista. Mande uma mensagem para os leitores do
Cipango
Zico- Um grande abraço a todos.

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